sábado, 28 de maio de 2011

That I caught fire

Deviam ser seis da tarde. O sol fazia sua saída pelo horizonte, com fabulosos raios laranjas. Alguns dos transeantes que voltavam para suas casas após uma longa jornada de trabalho paravam para apreciar o belo espetáculo proporcionado pela estrela-mor. Para outros, aquilo era apenas mais uma coisa sem importância no seu dia, por estarem cansados e infelizes demais ou por estarem eufóricos e esperançosos em mais uma volta para casa para repararem.

Os sons da rua chegavam abafados ao quarto por causa das grossas paredes de concreto e cimento que formavam o edifício do luxuoso hotel. Os sons dos carros, das conversas, das pessoas passando pelas ruas ao redor do prédio eram meros rumores do que acontecia do lado de fora.

Do lado de dentro, mais precisamente no banheiro, o silêncio reinava. Gotas de água escorriam pelas paredes, pelo teto, pelo chão, o vapor ficando cada vez mais e mais denso. O rapaz ali dentro escrevia no espelho coberto pelo vapor, palavras que para outros seriam completamente sem sentido, mas que para ele, eram parte de suas memórias.

O cabelo comprido, ondulado e escuro o fariam facilmente passar por uma mulher, se não fosse pelos ombros largos e pelos braços musculosos cobertos de tatuagens coloridas. A barba de pêlos claros lhe cobria parte do queixo e acima do lábio superior, e grossas e escuras sobrancelhas rodeavam-lhe a parte superior dos olhos. Segurava um cigarro em uma das mãos, enquanto com a outra continuava a escrever palavras desconexas no espelho, a água voltando ao seu estado liquido assim que entrava em contato com o dedo que servia como caneta.

A porta do banheiro foi aberta, um pouco do vapor escapando por ali. Uma garota alta, de cabelos curtos e loiros, usando apenas bermudas e um top adentrou no banheiro transformado em sauna. Ele a encarou atráves do vidro embaçado, os lábios entre-abertos, esperando alguma palavra que indicasse o que fazia ali, interrompendo sua escrita.

Não ouve manifestação alguma de som. Ela andou lentamente até onde ele estava, pegou o cigarro de sua mão e tragou um pouco do veneno. Ele esperou, e ela avaliou as palavras escritas no espelho. Depois de alguns segundos, completou o “a” gravado no canto do espelho com “mar”.

-Amar? – leu ele. – O que te fez pensar que eu queria escrever isso?

-Porque é o que você precisa.

O silêncio voltou, os olhos dos dois fixos um no outro. Ela piscou, quebrando o contato, e desapareceu pela porta do banheiro, voltando alguns segundos depois. Trazia uma flor vermelha na mão.

Ela entregou a ele a flor, e este a pegou, avaliando com curiosidade a frágil estrutura do vegetal naturalmente criado.

-Consegue ver o que eu quero te dizer? – ela perguntou, largando o cigarro dentro da pia de marmore. – O amor é como está flor: bonito, vital, esperançoso. É do que todos nós precisamos.

-Mas uma hora este amor vai começar a despedaçar – respondeu ele, tocando com cuidado nas pétalas, como se tivesse medo que o mínimo toque as desmanchasse – e então apodrecer e cair.

-Não se você o alimentar. Cuidar dele. Dar-lhe carinho, dividir bons momentos, coloca-lo no sol e sorrir. Ele vai crescer, bonito e forte. E se der certo, durará para sempre..

-Mas há coisas que não são feitas para durar para sempre.

Voltaram a se encarar. O rosto dele demonstrava espera, como se suas palavras fossem atos e ele esperasse a reação deles. Ela mordia o lábio inferior, uma mão apoiando-se no marmóre e a outra segurando a barra da bermuda que usava.

-Tentar me convencer de que o que sentimos não é verdadeiro não está funcionando.

Ele piscou, e um movimento brusco, selou seus lábios contra os dela, a barba arranhando a sua pele macia. Segurando os cabelos curtos, com toque leve. Beijaram-se, em movimentos sincronizados.

Ele a soltou, sentindo-se frustrado. Socou o marmóre, para ver se aquela frustração passava, mas o que conseguiu foi apenas dor.

Não conseguia aceitar, que toda vez que a beijava, aquela emoção o tomava. Algo como borboletas no estômago ou o que quer que fosse aquela satisfação calma que sentia. Como se não tivesse problemas, como se a dor do passado fosse uma invenção de sua imaginação a ser ignorada. Sentia que seu coração estava novamente consertado e que nada mais o iria machucar pelo resto de sua eternidade.

Toda vez que caia, ela estava lá para segura-lo. E ele tinha medo. De machuca-la, de se machucar ainda mais. Não queria mais uma ferida em seu interior, mais raiva para matá-lo.

-Porra de vida – xingou, encarando o fundo branco da pia. Ela se mantinha imóvel do seu lado. A flor vermelha jazia, esquecida, em frente ao espelho.

-Espero que uma hora consiga entender que negar algo que é inegável não é muito saudável para seu psicológico. – ela disse, pegando a flor e depositando um beijo no rosto dele, a barba arranhando-lhe mais uma vez. – Vou dar uma volta. Depois conversamos.

E saiu pela porta, fechando-a de volta. O vapor voltou a encher o aposento. Ele encarou seu reflexo no espelho, pensando nas palavras dela.

Suspirou. Ergueu a mão, e continuou a escrever palavras desconexas no espelho.

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