Vão dar um trato no seu visual
Com todas as mentiras dos livros
Para transformá-lo em um cidadão.
Pois eles dormem armados,
E ficam de olho em você, filho
Assim podem ver tudo que você faz
O cheiro de sexo, drogas e desolação ainda conseguia ser sentido naquele lugar, que agora servia como palco para a maior tragédia que a cidade já havia visto em anos.
-Como eles conseguem fazer algo como isto? – sussurrou para si mesma a tenente Smith, observando enquanto os legistas cobriam mais um cadáver com a tão temida e assustadora lona branca.
A questão era: porque eles faziam isso? Porque jovens com futuros tão promissores como aqueles faziam isso consigo mesmos? Para se mostrar? Para desafiar as autoridades? Eles queriam chamar a atenção? Não havia dado muito certo, já que depois de morto você não consegue muita atenção.
Pois as drogas nunca funcionam.
Eles darão uma risada cínica,
Porque eles têm métodos para mantê-lo limpo.
“Julye nunca faria algo assim” pensou a tenente Smith, se referindo á sua filha, única razão de ainda continuar a viver e a ter um pouco de esperança dentro de si. “Drogar-se até a morte? Não, minha doce Julye não seria capaz de algo tão estúpido.”
Então, aquele arrepio que havia sentido assim que seu superior lhe informará o que teria que fazer aquela noite voltou. Só que mais forte desta vez. Um longo e assustador arrepio, que lhe percorreu sua espinha como se fosse água fria sendo colocada por seu uniforme de policial.
Decidiu ligar para a filha. Apenas para conferir se estava tudo bem. Algo lhe dizia que as coisas não estavam bem, mas ela fingiu ignorar aquilo. Nunca havia acredito em intuição, não seria agora que ela começaria a acreditar.
Então escureça suas roupas,
Ou faça uma pose violenta
Talvez eles te deixem em paz, mas não a mim
Enquanto o telefone tocava, ela continuou a pensar na filha; tinha que admitir, Julye tinha um certo tipo de atração por coisas perigosas. Mas não á ponto de se drogar. Ou se matar.
A tenente Smith sentiu que estava se lembrando de uma das músicas que a filha costumava escutar com o volume no máximo. Era uma daquelas bandas para adolescentes que os integrantes usam maquiagem e roupas escuras em excesso.
Como era mesmo que começava a música?
"Hear the sound, the angels come screaming"
Ah, sim. Conseguia se lembrar de tudo: da letra, da melodia, até das batidas ritmadas da bateria.
Foi quando percebeu que não estava se lembrando da música. Ela a estava ouvindo de verdade, porque estava realmente tocando.
Virou-se, em um gesto brusco, na direção onde dois dos seus colegas carregavam uma maca com outro corpo. Era de lá que vinha a música.
“Não pode ser” as palavras voaram em sua cabeça, enquanto corria naquela direção, a música ficando cada vez mais alta, o celular esquecido em sua mão.
Arrancou a lona branca do corpo de um puxão só. Sentiu que estava ficando tão pálida quando á garota ali repousando.
Julie. Era o corpo da sua filha naquela maca. Sua filha estava morta.
Mas se está encrencado e ferido,
Isso que você tem debaixo da sua camisa,
Irá fazê-los pagar pelo que eles fizeram
-Caroline – um dos seus colegas colocou uma das mãos em seu ombro. Ela nem sentiu o toque – eu sinto muito.
A tenente Smith não respondeu. Não conseguia se lembrar de quem era. Só conseguia enxergar o rosto morto á sua frente. O rosto que havia visto nascer e crescer ao seu lado por 16 anos. O rosto da pessoa que ela havia amado com todas suas forças. De quem lhe dava esperança.
Mas a esperança não estava mais ali. Havia ido embora com a vida de sua filha.
A música continuava a tocar, proveniente do celular de Julye, que ainda estava guardado no bolso de sua calça. Ela tocava, anunciando a todos que quisessem ouvir a tragédia que havia acabado de acontecer.
Adolescentes. Sempre inventando maneiras de chamar a atenção.