"Duas horas", pensou Natália. "Apenas duas malditas horas fingindo que estou triste aguentando todos esses velhos hipócritas e então, serei finalmente livre" a mais recente viúva da cidade enxugou mais uma das falsas lágrimas de dor que rolou por seu rosto. Sempre havia sido boa em fingir.
-Livre, Mr. Black, finalmente, estou livre!
O gato miou, enquanto sua dona se jogava na grande cama de dossel da mansão que havia morado por cinco anos, que agora seria sua, exclusivamente sua. As risadas de alegria ecoaram pelo grande e bem decorado quarto.
Tudo seu. Tudo que sempre havia desejado, mas nunca havia tido por completo, agora era seu. Quem disse que casar com um homem rico só pelo dinheiro não valia a pena? Nada que um tiro não resolva.
Natália suspirou,e ergue-se da cama, livrando-se do vestido preto, ficando apenas com a roupa intima. Sempre havia gostado de dormir assim, mas James - seu marido - agora - morto - não gostava muito daquele costume da esposa, então Natalie sempre havia se visto obrigada a dormir com uma camisola no mínimo, o que a fazia odiar ainda mais James.
-Agora poderemos fazer tudo que quisermos, sem dar explicação á ninguém, Mr. Black – o gato pulou sobre a cama, aninhando-se sobre a barriga inexistente da dona. – Sem ninguém para controlar horários ou manias irritantes para suportar. Não sei porque demorei tanto tempo para fazê-lo.
Ela riu, lembrando-se dos caprichos de James; da irritação quando o jantar não era servido exatamente a hora que ele desejava, das brigas por ela não estar toda hora em seu encalce, dizendo-lhe elogios como se ele fosse um Deus. James era possessivo, orgulhoso e extremamente irritável á mera menção de que suas vontades não fossem cumpridas.
E ela aguentará isso por cinco anos. Até que chegou o dia em que sucumbiu á raiva, cansada de aguentar a personalidade irritante do marido, e o matou.
O casamento dos dois, em si, já havia sido destinado á ruir desde o começo, sendo construído em uma base de interesses e bajulações. Ela se casará com ele pelo dinheiro, e ele por ela aumentar seu ego de uma forma muito... atenciosa. E misturando todos esses elementos, tudo não poderia acabar de outra forma que não fosse tragicamente.
-Então, Mr. Black, o que faremos amanhã? – perguntou Natalie, acariciando o pelo macio do felino. – De que jeito superficial gastaremos a nossa fortuna? Compras no shopping ou uma viagem á Paris? Acho melhor compras, uma viagem agora seria algo muito animado para quem acaba de perder o marido, e não quero que suspeitem que eu não estou minimamente triste pela sua morte, porque, adivinha, Mr Black? Fui eu que o matei! – e riu abertamente, o barulho ecoando pelo enorme quarto.
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Acendeu o cigarro, as mãos tremulas dificultando o ato, a chama mexendo-se irritantemente de um lado para o outro, como fugindo do seu destino, de fazer todo o veneno do pequeno tubo branco queimar pelo ar, envenenando o ar á sua volta.
Havia tido um sonho. Não, um pesadelo. Dos piores que a sua mente podia criar. Ela havia falado com James. E ele sabia de tudo. De o porque de estar morto. De que ela o havia matado.
Ele não devia saber. Havia sido um plano perfeito; ele estava de costas, em seu escritório, olhando para a janela. Supostamente, não havia ninguém na casa, pois todos os empregados haviam sido dispensados e ela supostamente havia saído para resolver uns problemas da casa. Havia chegado, silenciosamente, e sem saber o que o atingira, James caiu no chão, uma bala em seu coração, encerrando sua vida para sempre.
Mas ele sabia. Que havia sido ela. E o pior: havia prometido vingança. A mais violenta, sangrenta e dolorosa vingança. Para ela. Natalie Elizabeth.
Eu estou voltando dos mortos, para tomar a vida que você me roubou, haviam sido suas palavras.
“Não, pelo amor de Deus, foi apenas um sonho!” gritou interiormente, aspirando a nicotina do cigarro, observando a chuva cair nos jardins bem cuidados da mansão, as nuvens cinzas deixando todo o ambiente triste e deprimido. “Estou exagerando. É apenas a culpa, apenas isso... não sou tão desumana, então é apenas culpa... apenas... culpa” pensou, murmurando lentamente as duas ultimas palavras.
-Acho que não é apenas culpa.
Um arrepio gelado percorreu sua espinha ao ouvir a voz grava atrás de si. A voz dele. Perto dela.
Não era possível. Não podia ser.
Mas ele havia dito que iria se vingar. Mas não, era humanamente impossível. Afinal, droga!, ele estava morto! Havia visto o corpo sendo colocado no caixão, e então o caixão sendo enterrado. Não. Podia. Ser. Ele.
Mas só havia um jeito de descobrir. Respirou fundo, e fechando os olhos, virou-se. E os abriu.
E a figura de James parado á sua frente quase á fez ter um ataque do coração.
-Nós vemos mais uma vez, não é, meu amor? – disse ele, um sorriso de desprezo e ressentimento estampando seu rosto bonito. Parecia estar melhor do que havia estado em toda sua vida; havia uma luz em seu rosto, uma vitalidade, de alguém que finalmente havia descoberto a felicidade.
E isso só podia ser o eufismo do ano, porque James estava morto. Enterrado. Morto, enterrado, sendo devorado pelos vermes, apodrecendo debaixo da terra.
-Você não está aqui – sussurrou, agarrando-se á beirada da janela, o cigarro caído no chão, esquecido.
-Não estou? – repetiu James, sorrindo. – Acho que estou sim. Posso até te abraçar para provar que estou aqui – disse, abrindo os braços, e avançando alguns poucos passos na direção de Natalie.
-Não encoste em mim! – gritou, correndo em direção á porta do quarto, tentando abri-la. Mas a maçaneta não girava. Alguém havia trancado a porta.
-Vamos lá, Nati. Você foi sempre tão amorosa comigo, porque não quer um abraço de reencontro? Não sentiu minha falta? Não ficou triste pela minha morte? E agora estou aqui, e poderemos continuar á viver, juntos! Para sempre! Não é ótimo?
-Saia daqui! Agora! – mandou, gritando, o pânico subindo pela sua garganta, como um veneno corrosivo. Não conseguia acreditar; mesmo depois de morto, James ainda faria de sua vida um inferno? O que teria que fazer, se matar também?
-Sempre tão assustada... tsc tsc, Nati. Acho que você não aprendeu nada desde aquele dia que nos conhecemos. Você ainda se lembra? Éramos jovens e achavamos que poderíamos fazer o que quiséssemos...
-Vá embora – gritou, outra vez, em vão, porque a única coisa que James fazia era sorrir para ela, e falar. Falar como se um dia tivessem se verdadeiramente amado, como se tivessem se dado bem, como se fossem marido e mulher de verdade. Mas ela sabia, que tudo aquilo não passava de um teatro. Sabia que James adorava tortura-la, fingindo que se amavam. Como se ele não soubesse que estava morto por sua causa.
-Natalie, Natalie. Se não gostava de mim, era apenas ter me dito, e nós teríamos nos divorciado e eu encontraria outra mulher e você seguiria sua vida; mas não, teve que me matar, apenas para ficar com meu dinheiro. O quão suja e baixa você consegue ser apenas por dinheiro? Venderia á própria mãe por alguns míseros doláres, não é mesmo?
-Eu disse para você sair – sussurrou, a raiva se misturando com o medo. Tentava abrir a porta, mas a maçaneta insistia em ficar travada no mesmo lugar, sem se mexer um milímetro. – Essa casa é minha! Saia da minha propriedade!
-Sua, Natalie? Esqueceu que tudo o que há aqui é meu? Pertence á minha pessoa? Já se esqueceu disso?
-Você está morto! E eu sou sua viuvá, então tenho direito á seu dinheiro e suas propriedades! Então, saia daqui!
-Estou morto, por sua culpa – o sorriso desapareceu do rosto dele, sendo substituído por uma expressão de raiva e ressentimento. – eu poderia estar lá fora, andando pela chuva, respirando o ar gelado, mas não posso, porque você me matou. Por dinheiro.
Ela estremeceu, vendo o ódio que James emanava. Sempre que ele ficava bravo, todo aquele ódio começava a sair de sue coração e a ser colocado para fora, atingindo quem estivesse por perto, e sempre que isso acontecia, ela era quem pagava por tudo. Ele batia nela, até não aguentar mais.
Era por isso que ela o odiava tanto.
-Não, eu te matei porque você era mau! – lágrimas escorriam pelo rosto bonito e feminino. – Você ma batia! Era violento e possessivo, e não me amava!
-E nem você me amava, Natalie. Estava comigo apenas pelo dinheiro.
-Saia! – gritou, a voz perdendo-se por sua garganta, escondendo o rosto com as mãos, escorregando pela parede até cair sentada no chão, sobre as pernas. Não conseguia aguentar a frustração. Havia esperado tanto, e agora ele estava de volta. Do inferno. Para busca-la.
-Então, nos poderíamos nos perder – a voz veio á centímetros de seu ouvido, a respiração acariciando assustadoramente sua pele – e pintar estas paredes de vermelho tridente.
-Vá para o inferno.
-É para onde eu estou indo, meu amor. – mãos geladas seguraram seu rosto, mas ela recusou a abrir os olhos, o medo corroendo-a. - Só que vou te levar junto comigo.
E o golpe mortal e atingiu, expulsando toda a vida do corpo, que caiu inerte no chão.
Um forte vento passou pelo quarto, e então tudo acalmou-se. Um gato preto saiu de debaixo da cama, onde estivera o tempo todo assistindo a cena. Com um clique, a maçaneta do quarto destravou, um pequeno espaço de passagem para o corredor sendo aberto. O gato miou, andando lentamente até chegar á porta, passando por ela e pelo cadáver no chão, indiferente á tudo.
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