quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sorte ou azar

Andando, andando. Pelas ruas escuras, sem rumo á tomar, apenas movendo os músculos sem pensar em nada, apenas se concentrando nos movimentos. Andando pela noite.
Algo a faz parar. É um barulho. Uma figura surge de repente pela escuridão das ruas. Ela segura uma faca que pinga sangue em sua mão direita, enquanto na esquerda há um crucifixo que está sendo pressionado com tanta força que deixará marcas na pele.
-Eu não sou pecadora – diz a figura, apertando mais ainda o crucifixo.
Ela não sabe o que responder. O que iria dizer para aquela pobre criatura, se ela mesma estava pior? Parecia que seu coração não batia mais. A sensação das batidas não a acompanhava mais. Como iria ajudar?
O cheiro do sangue chegou ao seu nariz. Ela fechou os olhos, tentando resistir a aquilo, mas seu instinto a venceu. Em um pulo, pulou sobre a figura, que em vão tentou defender-se com a faca, mas quando os dentes fiados cravaram-se em sua pele ela não podia fazer mais nada.
Ela sentiu o gosto doce do sangue entrando pela sua garganta. Sugou com toda a força que tinha, seus lábios gelados ficando aquecidos pelos breves momento em que ela tomava o precioso liquido avermelhado. Abraçou o corpo agora sem vida, e tirando a ultima gota de sangue dele, tirou os dentes do pescoço de sua vitima.  Ergueu-se, limpando a boca com a manga do casaco. Precisava livrar-se das evidências.
Ergueu o cadáver e colocou sobre seu ombro e voltou a andar. O mar não estava muito longe dali.
Andou lentamente, sentindo a brisa gelada da noite bater em seu rosto, acusando-a do assassinato que acabará de cometer. Tudo bem, ela pensou. Todos nós somos pecadores.
O cheiro salgado do mar a atingiu, e então ela correu em direção a praia. Entrou no mar, sem se importar em molhar as roupas, e andou até onde conseguiu, sempre carregando o cadáver consigo. Quando chegou em um ponto relativamente fundo, mergulhou, até tocar na areia umida,  e largou o cadáver ali.
Voltou a superfície e nadou de volta a praia. Fez o sinal da cruz e andou de volta para as ruas da cidade. Era apenas mais uma noite das muitas que ainda teria antes do fim do mundo.

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